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segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

A vida não é a preto e branco

Sim, eu sei, a vida dói. Há momentos que quase nos arrastam para o abismo. Há horas em que nos sentimos fechados num quarto escuro ou numa cela de onde não conseguimos sair. Há dias com tantas nuvens que não enxergamos o sol. Falo do sol, não apenas astro, mas também luz, energia, esperança. Se não o temos dentro de nós como bússola, corremos o risco de nos perder. Pode ser apenas um ténue raio, mas esse mesmo tem um intenso poder clarificador. Podemos crer ou descrer. Olhar de frente ou virar a cara para não ver a miséria, as injustiças, os males que corroem o mundo em que vivemos. Temos essa liberdade de escolha. Mas se optarmos por não nos envolver, e se nada fizermos, somos responsáveis pelo estado da sociedade que deixamos aos nossos filhos e netos. Somos o exemplo não apenas do que pensamos, mas também do que fazemos. Por isso, somos o resultado das nossas escolhas. Não escolher é já escolher. Deixar correr sem nos envolvermos, por comodidade ou cobardia, também é uma opção. Não ligar à política é uma forma de ser político, mas absentista. Não dar nada aos outros, sejam eles da família, amigos ou estranhos, é o mais nefando egoísmo. Enfim. A vida não é a preto e branco. Existem cambiantes. De um lado não está o bem e do outro o mal, ou os bons e os maus como os americanos tanto gostam de simplificar. O que fizermos agora tem implicações amanhã. É preciso que nos consciencializemos dos nossos atos e omissões. A liberdade não é um estado puro, sem quaisquer condicionalismos.
Ser Livre custa. Mas vale a pena.
10 de dezembro de 2017 
Maria Teresa Sampaio
L'enfant au pigeon. Pablo Picasso
De felicidade, de imensa alegria, de incontida emoção se fazem certos dias.
São momentos que se vivem intensamente como eu sempre gostei de viver.
O amor realiza maravilhas, suaviza as dores, faz despontar sorrisos que se abrem em gargalhadas, lágrimas que adoçam os traços do rosto. As surpresas não perdem o efeito mágico mesmo que alguém inadvertidamente deixe escapar uma palavra reveladora.
A família é esta raiz que cresce e se fortalece bem fundo, no ventre ou na terra, para depois se transmutar nas flores e nos frutos que são os filhos e os netos. A casa é mais do que estas paredes que me abrigam. É a verdadeira essência do Lar e quando os meu filhos e as minhas netas me rodeiam de tanto carinho, da profunda dádiva que nasce, num caso particular, do sacrifício pessoal, eu apenas posso e sei sentir-me imensamente feliz e grata. O riso e as lágrimas são como as cores do arco-íris, porque eu tenho o sol, as estrelas e o luar dentro de mim.
...
3 de dezembro de 2017
Maria Teresa Sampaio






quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O louco

Loucos, há-os em todos os tempos. O século XX destacou-se nessa área.
No século XXI há vários, os que se conhecem e os que estão ocultos entre as massas. Alguns equivalem-se no grau de insanidade. Tanto assim é que entre  ‎Kim Jong-un e Donald Trump tenho uma enorme dificuldade de escolha. Ambos padecem de perigosos distúrbios de insânia. Revelam atitudes de insensatez, imprudência, irresponsabilidade e mesmo bizarria. São muitos adjetivos para definir dois homens apenas? É verdade. E, contudo, não chegam.
Donald Trump, ao tomar a decisão de mudar a embaixada dos EUA para Jerusalém, considerando-a, unilateralmente, capital de Israel, destruiu de uma só penada os ténues vestígios de paz no Médio Oriente. Ao arrepio do Direito Internacional, violando várias resoluções da ONU e enjeitando a capacidade de mediação do país que desgraçadamente representa, num conflito que, agora, graças a esta medida completamente temerária, leviana e estúpida, de novo se agudiza perigosamente,  o senhor que detém o poder nos EUA, apenas vem acentuar  grosseiramente o que já sabíamos: não possui o mínimo de aptidões para desempenhar o cargo para o qual foi eleito à tangente, com a ajuda solícita de Putin, é um ignorante rico e um louco perigoso, que de diplomacia sabe menos de zero. É questionável e mesmo improvável que consiga acalmar os ânimos internamente, cedendo ao lobby judaico, e para o caso vertente, isso também pouco importa. Na arena internacional só conseguiu, por ora, o apoio espectável e reconhecido de Benjamin Netanyahu e a oposição de todos os países muçulmanos a esta que já é considerada pelo presidente do concelho nacional iraniano-americano a “mãe de todas as medidas estúpidas”. Quanto aos restantes países do mundo, até há pouco, não eram conhecidos apoios. Pelo contrário. A primeira reação internacional foi do secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, criticando "medidas unilaterais”  e afirmando que Jerusalém tem de ser reconhecida como "capital de Israel e da Palestina". Também a EU rejeitou já a decisão de Trump.
O jornal Daily Star no Líbano escreveu em manchete: “Sem ofensa, senhor Presidente: Jerusalém é a capital da PALESTINA”.
Mr. Trump conseguiu em menos de três dias desencadear uma nova intifada. A sabedoria deste homem é incomensurável.
7 de dezembro de 2017

Maria Teresa Sampaio
Jacob Cornelisz van Oostsanen 
The laughing Fool, ca. 1500.




sábado, 2 de dezembro de 2017

”I know not what tomorrow wil bring”.

Fernando Pessoa fumava cerca de quatro maços de tabaco diariamente e bebia, bebia muito. Nos últimos tempos de sua vida as cólicas abdominais e os estados febris, por vezes intensos, eram cada vez mais frequentes. O médico avisara-o que tinha de parar. Mas Pessoa não lhe deu ouvidos e prosseguiu o seu caminho alheado da terrível realidade que funcionara como uma sentença a pairar sobre a sua vida, embora tantas vezes ele próprio tivesse escrito sobre a morte. No dia 29 de novembro de 1935, ainda chamou o Sr. Manassés, barbeiro, que morava bem perto de si, na rua Coelho da Rocha, em Campo de Ourique, mas acabou por ser hospitalizado no Hospital de São Luís dos Franceses, no Bairro Alto, com uma crise hepática grave. Já na cama, pressentindo o fim, pediu papel e lápis para escrever as suas últimas palavras, na forma enigmática que lhe era tão peculiar. Não usou o português, mas sim um inglês literário:
”I know not what tomorrow wil bring”. 

No dia seguinte, a 30 de novembro de 1935, Fernando Pessoa deixou-nos. Eram cerca das 20 horas. 
Ocorrem-me as suas palavras proféticas: 

“Tornando-me assim, pelo menos um louco que sonha alto, pelo mais, não um só escritor, mas toda uma literatura, quando não contribuísse para me divertir, o que para mim já era bastante, contribuo talvez para engrandecer o universo, porque quem, morrendo, deixa escrito um verso belo deixou mais ricos os céus e a terra e mais emotivamente misteriosa a razão de haver estrelas e gente.” (“Aspectos” , Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966)
Fernando Pessoa foi a enterrar no Cemitério dos Prazeres, no jazigo da avó, no dia 2 de dezembro de 1935. Luís de Montalvor discursou em nome dos sobreviventes do grupo do Orpheu. Fisicamente o Escritor deixara-nos, mas a verdadeira importância da sua obra ainda iria ser descoberta, reconhecida, estudada e traduzida para todo o mundo, até aos dias de hoje. 
Fernando Pessoa era sensitivo e disso nos apercebemos em muitas dos seus escritos, como este do Livro do Desassossego em que diz: 

“ Penso às vezes, com um deleite triste, que se um dia, num futuro a que eu já não pertença, estas frases, que escrevo, durarem com louvor, terei enfim a gente que me «compreenda», os meus, a família verdadeira para nela nascer e ser amado. Mas, longe de eu nela ir nascer, eu terei já morrido há muito. Serei compreendido só em efígie, quando a afeição já não compense a quem morreu a só desafeição que teve, quando vivo. Um dia talvez compreendam que cumpri, como nenhum outro, o meu dever-nato de intérprete de uma parte do nosso século; e, quando o compreendam, hão-de escrever que na minha época fui incompreendido, que infelizmente vivi entre desafeições e friezas, e que é pena que tal me acontecesse.” 

É por isso que a minha página se intitula “Fernando Pessoa: "Passo e fico, como o Universo." https://www.facebook.com/pg/fernandopessoafica/ 
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Lisboa, 30 de novembro de 2016 

Maria Teresa Sampaio
Funeral de Fernando Pessoa

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Fernando Pessoa partiu mas ficou

O dia 30 de Novembro de 1935 marcou o fim da vida de Fernando Pessoa e de todos os outros em que se manifestava.

Escreveu tanto e tão diversamente, que ainda hoje os investigadores descobrem textos seus. E, no entanto, a “Mensagem” foi o único livro publicado enquanto viveu. Partiu aos 47 anos quando já nada mais esperava da vida. A infância era o seu paraíso perdido e a mãe, eterna âncora, que ele amava mais do que tudo na vida, nunca o compreendeu. Ofélia foi a amada possível, que teria de abandonar porque a sua vida era guiada por Mestres oclusos e tudo na vida girava em torno da sua obra literária. Para a concretizar precisava de sossego e de isolamento. Isso mesmo escreveu a Ofélia.

“Era um poeta animado pela filosofia, não um filósofo com faculdades poéticas. Adorava admirar a beleza das coisas, descortinar no imperceptível e através do muito pequeno, a alma poética do universo.”
Para ele “ a poesia é assombro admiração, como de um ser caído dos céus que toma plena consciência da sua queda, espantado com o que vê”.(1)
Tornou-se infinito na obra imensa que deixou e no pensamento que ainda hoje é estudado. Era tão imenso e tão profundo que não cabia em si. Tinha de se outrar em tantos heterónimos e figuras literárias, quantos a sua imaginação criara. Insubordinador de espíritos, criador de paradoxos e de enigmas, foi Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares, entre outros, mas neles todos foi ele mesmo.

Veio antes do seu tempo e dos seus pares e atingiu os cumes onde apenas teve por companhia a solidão.
Deixou-nos um lamento, que era mais um grito de alma: “ Penso às vezes, com um deleite triste, que se um dia, num futuro a que eu já não pertença, estas frases, que escrevo, durarem com louvor, terei enfim a gente que me «compreenda», os meus, a família verdadeira para nela nascer e ser amado. Mas, longe de eu nela ir nascer, eu terei já morrido há muito. Serei compreendido só em efígie, quando a afeição já não compense a quem morreu a só desafeição que teve, quando vivo. Um dia talvez compreendam que cumpri, como nenhum outro, o meu dever-nato de intérprete de uma parte do nosso século; e, quando o compreendam, hão-de escrever que na minha época fui incompreendido, que infelizmente vivi entre desafeições e friezas, e que é pena que tal me acontecesse. (2)

Tornou-se o escritor português mais traduzido no mundo e o seu “Livro do Desassossego”, paradoxalmente em prosa e um não livro, porque fragmentário, é o best seller da sua obra.

Fernando Pessoa passou e ficou “como o universo.”
 
Maria Teresa Sampaio

(1) In: Obra Essencial de Fernando Pessoa.Prosa Íntima e de Autoconhecimento. Edição Richard Zenith, Assírio & Alvim, Abril 2007
(2) In Fernando Pessoa. O Livro do Desassossego, Edição de Richard Zenith, Assírio & Alvim. Trecho 191.
Pessoa num desenho de Almada Negreiros, executado 
em 30-11-1935, no regresso do cemitério.


terça-feira, 28 de novembro de 2017

O dia 28 de novembro

a esperança existe sim
desponta de repente como
uma flor no deserto
vem de um mundo ideal
de formas sonhadas
mas também de profundas
e inesperadas emoções
de acreditar que se consegue
corrigir o que está mal
e pelo menos reconstruir-nos
subitamente tudo muda
com o impulso do vento
acariciando as copas das árvores
o sol a esconder-se
avermelhando o horizonte
mãos pequeninas de criança
a pureza e inocência do seu olhar
o amor solidário dos filhos
o carinho da família
as memórias insuperáveis dos
que já partiram e tanto amei
as paixões e os amores saboreados
eu já não sou apenas eu
sou como uma força de vida
que vem do início das eras
porque trago os outros em mim
aceito tudo o que foi e que vivi
os erros e as falhas
o que é e o que será
sou alguém que resgatou o passado
e na aceitação do presente
procurando ultrapassar as dores
para além dos limites
para além das fronteiras
para além do tempo
na busca permanente de sabedoria
existe
e vive cada dia de aniversário
com Alegria muita Alegria
~~
28 de novembro de 2017

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Marcelo.

Marcelo prepara diligentemente a sua candidatura a um segundo mandato.
Avalia passo a passo, abraço a abraço, beijinho a beijinho, o efeito do seu omnipotente esbanjamento de afetos. A nação, carente e suspirosa, caiu-lhe nos braços e deixa-se afagar, depois de longos anos de secura com um mumificado Cavaco.
Marcelo conhece os efeitos balsâmicos de um abraço aconchegante, de palavras sussurradas ao ouvido, no momento certo, quando quem está esmagado pela dor sente o consolo que vem, inusitadamente, do topo da hierarquia do Estado.
Pode dizer-se que internacionalizou o abraço, numa fotografia que correu mundo e foi partilhada nas redes sociais da revista  “Time”.

Mas sabe também aproveitar todos os momentos, retirar de cada oportunidade apenas sugerida, escassamente percebida pelos outros, o máximo proveito para os seus desígnios. E como quase não dorme, sobra-lhe tempo para as mais inesperadas elucubrações.
Enquanto António Costa negociava a ajuda europeia em Bruxelas, Marcelo prosseguia, incansável, o seu périplo de amplexos e enleios, passando ao mesmo tempo uma rasteira traiçoeira ao homem que zelosamente o tinha informado, atempadamente, sobre as medidas que haviam sido programadas e sobre a demissão, então em marcha, da ministra da Administração Interna. Mesmo assim, optou pela dissimulação, pelo simulacro, encenou o grande espetáculo dramático e, como se nada soubesse, do alto, do seu cargo de Chefe de Estado e de Comandante Supremo das Forças Armadas não resistiu a zurzir o Governo num tom severo e tonitruante como até então ninguém lhe tinha ouvido, que soou como música angelical à sua família política.
Veio, pois, exigir que se cumprisse o que antecipadamente sabia ia ser cumprido. Mas não se ficou por aí, foi mais longe, ameaçou com as consequências da moção de censura que a sempre diligente e virtuosa Cristas lhe colocava à disposição e que acabou por resultar num favor ao Governo.

Houve jornalistas que souberam, pouco antes do discurso do Presidente, que a ministra ia ser demitida, mas preferiram não divulgar. Estavam distraídos com outros sinais de fumo… Apenas Daniel Oliveira deu conta desse facto publicamente e quando o fez no programa “Eixo do Mal” do passado dia 21, foi logo fustigado pelos presentes. Só no dia 26 o “Público” fez manchete do assunto, seguido do DN.

Marcelo respira política por todos os poros, da pontinha dos cabelos às unhas dos pés. Provavelmente desde o berço!
Já assim era na Faculdade de Direito de Lisboa. Quando numa greve geral ― antes do 25 de abril de 1974 ― os campos se extremaram a tal ponto, entre estudantes de direita e de esquerda, que os confrontos físicos, ultrapassaram as barricadas, o sangue correu e a polícia de choque, como de costume, fez a sua brutal aparição, Marcelo Rebelo de Sousa, afilhado de Marcelo Caetano, filho de um ministro de Salazar, não furou a greve como alguns, seus escassos colegas do 5.º ano fizeram. Estou a lembrar-me de Braga de Macedo que, apesar de agredido rompeu os piquetes de greve, em coerência com as suas ideias de direita.
E o jovem Marcelo era de esquerda? Claro que não.
Fez greve? Também não.
Então? Foi fura-greves? Nãããão, destoar-lhe-ia no currículo.
Recordo-me de o ver do lado de cá da barricada, ou seja, onde nós estávamos, os estudantes de esquerda. Trocava palavras amistosas, observações casuísticas, com quem lhe desse troco, num tom afável, como se não fosse nada com ele. Parecia um observador investido superiormente por uma entidade desconhecida dos demais..

Quem diria? Aquele que viria a ser o futuro Presidente da República de Portugal dava os primeiros passos na coabitação política, preparava já o seu caminho, com a inteligência e a habilidade que todos lhe reconhecem, a frieza, o calculismo e a  premeditação que poucos ainda lhe atribuem.

Os últimos acontecimentos, particularmente o mais recente episódio com António Costa, remetem-me para a fábula do escorpião e da rã. Tal como o escorpião, Marcelo não pode evitar a sua própria natureza.

Maria Teresa Sampaio
27 de Outubro de 2017